Quarta-feira, Março 30, 2011

Um dia, o caminho que sempre esteve lá torna-se irrecusável. Tanto me esperei e, com meus olhos tomando banho, preparando-se para sair, digo: este blog ficará em silêncio por tempo indeterminado. Aonde vai dar este passeio? Não sei. O imprevisível de todos os caminhos. O inegociável chamado.

A gente se vê no papel.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2010

Trinca




















Gego
- SemTítulo - 1963

Ele nunca havia se fixado nas estrias. Dezenas, contaminam as coxas, as páginas, como pelotões de um exército à espera de ataque que nunca virá (veio, algum dia, há muito?).

Estrias sobreviventes a todo tipo de tratamento estético. Tripas pulsadas vivas, claras, revelando e cifrando a histeria, a escrita fresca.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Não podia expor as estrias. Já estavam expostas. Eu é que não reparara. Reparara?

Ele atento ao movimento imóvel cobrindo recobrindo (descobrindo?) a pele, as páginas. Rasuras de poros. Veredas, fotografia de ondas, pelotões estáticos, enguias congeladas. Estética da imperfeição. Falha da unidade.

Eram uma única estria estrias.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Ela está posta nos traços transbordados da estrutura - planta escapando da construção, rabiscando o ar.

Vejo os traços secretos dela. Contornos, grifos, rascunhos.

Ele verte lágrimas. Gota a gota, riachos rasgam a nossa face. Eu estou numa margem; ele, em outra. Quem é ele? Quem é você que, pela persiana, espia?

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Potência revelada em cada linha, o tecido completo contemplado num ponto cruz que estabelece a vertigem.

Pele que era pretendida para outra coisa. Não obedece. Caligrafia rebelde, que passa rasteiras no lápis e pinça o olhar habituado.

Movimento: gesto que trapaceia a forma e inaugura o desfazer da idéia que nos escravizará. Vinco que nos vincula.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

O rastro de um avião. Pipa empinada com cerol fissura o vento. Mão que puxa a pauta de um caderno. Essa neurose, essa neurose, essa neurose... a nossa carne crua no mundo.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Ele é campo sem rios, lençol freático sem vazão. Eu sou a chuva que molha a sinastria. Elas são o vazio que hemorragia o invólucro.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Ranhuras... ranhuras... escrituras.

A língua constata a fibrosidade da superfície que me designa. Os fios desaguam nos olhos, nos cabelos, nas unhas, em você. Não desaguam em nada.

O subterrâneo intuído na boca-de-lobo. Imaginação-frincha deformando. Movimento desse texto estático que me - Adriana, ele, eu, você - costura na página, no nada.

Segunda-feira, Dezembro 20, 2010

Sagração

no mundo, liberto An:
Antonio, tu me tontea
Antonio, tu me arrazoa
Antonio, tu me entornaste
em cada canto teu,
eu me inteira cantei.

Antonio, meu cúmulo
Antonio, meu túmulo

então, dormi contente
de, então, tombar em ti
Antonio, salvei-me em Ti
com um tanto de atenção.

Sábado, Dezembro 18, 2010

Quinta-feira, Dezembro 16, 2010

Dobradiça

- Pedro?
- A gente não se fala. Não tem memória? É só desprezo puro, destilado!
- Calma. Tira esse estilete do meu pescoço um minuto. Preciso dizer algo realmente importante. Para nós.
- O que é?
- Vamos fazer algo belo juntos.
- Você é louca???
- Pedro, eu te odeio tanto, num crescente. Não quero te odiar mais... para não correr o risco de começar a te amar.
- Vamos.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

Posso me sentar, Antonio? Veja, essa refeição começou anteontem na minha cozinha, que, olha, ainda está sem gabinete... você reparou nos canos à mostra sob pia? Falo isso como se isso importasse. Importa?

Venha ver o molho dessa massa. Custou a ficar assim como está. Ai, espirrou na sua blusa? Desculpa. A gente limpa já para não manchar. A minha tá toda suja, olha só! Deixei manchar, parece uma aquarela, não parece? Molho interminável. Nem me lembro mais de todos os ingredientes que entraram. Podemos degustar juntos e, feito sommeliers, discriminar cada micro partícula de tempero do oceano, podemos? Esse molho merecia uma taça de cristal. Como eu queria que a sua língua enxergasse como a minha enxerga.

Ainda bem que não enxerga. Assim, posso contar o que a minha vê. Você vai imaginando aí. Depois, me mostra. A sua língua escuta? Antonio do céu, Antonio, Antonio, olha, experimenta! É delicioso! Toda a nossa horta entre ervas daninhas está aqui neste molho. Olha, se molha, se lambuza.

Os tomates, em carne viva, foram muito, muito, muito macerados, cada um. O pilão explodia os gomos, as sementes - rim expelindo suas pedras. O sumo voava longe, você precisava ver. Os azulejos menstruavam, minhas mãos menstruavam. Deixei o suco dormir perto da janela, com sal, para que coagulasse até virar placenta. Tomilho! Eu me lembro! Foi um terço de tomilho, um ramo inteiro. As folhinhas destacadas, uma por uma, entrando em romaria no mar vermelho. As pimentas que você trouxe da Índia.

Meu Deus, Antonio, você tinha pimentas da Índia, de tão longe, sabe-se lá quem plantou essas pimentas, que mãos colheram... Ouvi dizer que quem colhe pimentas tem problemas de visão. No começo, os cientistas achavam que alguma substância ingerida nas regiões de plantio provocava a atrofia dos músculos oculares. Mas, depois, descobriram. As unhas raspam na casca das pimentas e o ardidinho vai para os olhos quando a vista coça. E a vista sempre coça. Esse ardidinho penetra na glândula produtora de lágrimas e vai corroendo as células da pupila. Sobra a cegueira pura.

Fervura. O molho ferveu até não haver mais força para borbulhar, até o próprio fogo ceder. A lenha estalando e o líquido se revirando na panela. Briga de barulhos - bruma grossa me abraça. O vapor misturado com a fumaça e com ele mesmo e ela com ela mesma e com o meu suor. Chegou num ponto de não se enxergar mais nada além da labareda e suas fagulhas. Farol no nevoeiro. A vista ardendo. Eu me guiava pelo barulho do molho e da lenha, a conversa em outra língua que tive de entender.

Quando o fogo começou a se acalmar? Não sei. Não dá para saber. A subida vira ladeira sorrateiramente. Você é descido do jeito que pode. A lenha se calou, o molho se calou, dava para ouvir a neblina caminhando. Não sabia o resultado. A borda da panela envergou, era outra panela: vaso para colocar um arranjo de flores silvestres.

E, agora, o molho morno, na nossa língua. Vê? Era um apetite.

Terça-feira, Dezembro 14, 2010

Penumbra

Para Antonio, meu Abismo, meu everest, meu orvalho-Amor, ausência que me transforma todo ontem e amanhã em abc:

Como será que serei quando tinha 18 anos, tenho, não tenho, teremos, e você me infinitos verbos daqui a um tempo nesses tempos que se embolam e me põem outra e outra e outra agora?

Sexta-feira, Dezembro 10, 2010

A fita de isolamento de trânsito, amarela e preta, amarela e preta, enroscou-se em algo, impedindo a circunferência completa que isolaria o acidente. Pela fresta, o olhar dele entrou e misturou-se ao corpo do motoqueiro atropelado enquanto a mãe interditava “não olha que o negócio tá feio!”. Mas ele já estava misturado à cena.

O problema: não é bem como contei. Não é que ele se emocionou com o acidente como quem sente empatia por alguém que sofre e, por um instante, sente em seu corpo a dor do semelhante. O acidente era ele. A fratura exposta era a fratura exposta do seu coração.

Devidas proporções: ele tinha só cinco anos.

- Mas e daí?

É. E daí? As pessoas, sendo pessoas, podem fraturar o coração, assim como qualquer outra parte do corpo, em qualquer idade. Aos cinco anos, o coração dele era, desde sempre, a hemorragia, a fratura – exatamente a ferida do motoqueiro morto

- Tava morto?

Não sei. Mas, pelo menos, quase.

Era o mesmo ferimento do coração dele e do motoqueiro. Não é que um era igual ao outro. Era o mesmo, que atravessava os dois, que se cruzaram na esquina das avenidas. Será que você pode entender sem ter sido ele?

A mãe tentava interditar o olhar como alguém se esticando para puxar o braço de um ente querido que é arrastado pela correnteza do rio. Tentava. O que foi esse encontro que fez o menino desembocar no mundo?

Só isso

Prestígio social
esfacelado
feito celofane na água

Grande, grande, grandíssimo
é você apequenado
na minha casa de taipa
sob a pouca luz da clarabóia

Não sei se é sono
ou se é preguiça
Mas
te ver assim,
desmilingüido,
tão quieto-implícito,
faz
uma baita sensação de

por isso.

Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

A odalisca tristando
ao caracol em atrito
sem casca

Uma fagulha da cascata
tempesta nele
o resgata

Escorrega na gota
mergulha na tina
só uma isca

A mata nem pisca.
Borbulha. Mentira.
A mata não é

nem atriz.

Sábado, Dezembro 04, 2010

Eu?

Eu falo "amo"

a platéia aplaude.

Eu finjo que sambo
A platéia aplaude...

Eu faço playback
A Platéia aplaude

Eu vivo em playback A
PLAtéia aplaude A PLAtéia aplaude
eu sou o pl A PLATÉIA aplaude A PLATÉIA aplaude
eu sou A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE
eu A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE
eu? A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE
A PLATÉIA eu? APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA
A PLATÉIA APLAUDE eu?
A PLATÉIA APLAUDE e?
A PLATÉIA APLAUDE?

A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE
A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE
A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE A PLATÉIA APLAUDE APLAUDE APLAUDE

Sexta-feira, Dezembro 03, 2010

Você me enxerga.
Enxergando-me,
me encharca

de mim

Nascem passarinhos da terra
verde verdeja
como só o Verde
só pode verdejar

ao ver-te

Você existe. Está aqui -
tudo em tudo berra:
o universo...
o uni duni tê...

Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

- Minúsculo ácaro,
que não enxergo,
troca de lugar comigo?

Só nessa encarnação,
porque quero indagar
o oco do mim do Invisível.

A morte

A Roma
em certo momento, morreu.
declínio - desejado -
pela Quietude.

tudo o que quer
O Amor,
inclinado ao dejeto,
ao desejar - o Império -

é A Morte.

Segunda-feira, Novembro 29, 2010

a Ventania me acordou
na cama sobre a relva em que dormia
a sorte é minha
lua cheia agora míngua:
- mia, florzinha amarelazul, mia!
caminha, luar, meu bem,
- vens, tu, Vento, que queres me carregar? queres?

sou Eu o vendaval
vazando à faca as avenidas!
até que que que
que Calmaria.
eu amanso e sonho: o Lodo, a Ladainha

Domingo, Novembro 28, 2010

Pulo


Sábado, Novembro 27, 2010

A trepidação

do som do sino
Extrai de mim
um Estrondo
entretecido com monte de Estrume.

Ou isso se esclarece ou se lacra.

Sesclarecelacra
no Silêncio.

Sexta-feira, Outubro 01, 2010

- Não tem vergonha na cara, não?
- Na cara? Não... no bolso, acho. Às vezes, passo na cara. Como quem passa blush. E passo por envergonhada carola, que se cochicha na penumbra das velas e passa o dedo indicador nas chamas eretas enfileiradas, tão certinhas nos castiçais sem vento...


... até queimar a pele e "Ai!Penitência, Pai Nosso. Penitência...".

No púlpito:
Entre um breu e outro, súbito, deu-se para o mocinho rezando (ex-coroinha, crente, como um louva-a-deus distraído aprisionado em âmbar e tornado broche de madame), rezando, rezando.

Deu-se, deu-se, deu-se, Deus.