O Visitante
No dia 22 de setembro. Todos os anos, C. descia à mina abandonada cujo acesso era em seu quintal. No buraco iluminado apenas por um lampião, redevorava as peças das vitrines que tinha construído para guardar o corpo de seu Visitante. Ela o esquartejara em pernas, braços, cabeça, tronco, bacia, coração, dedos, unhas e cabelos - cacho por cacho. Todas as partes endurecidas em resina transparente, dispostas de acordo com a secreta organização do horror. O Visitante e seu violão, também esquartejado em cordas, pestana, tarrachas, tampo, trastes e mais trastes.... Absorvida pelas lembranças da Visita, ignorava as aranhas subindo-lhe pelas pernas, tecendo entre seus cabelos.
O tesouro subterrâneo. A constante ameaça.
No dia 22 de setembro. Ela desceu, como sempre descia. Mas, naquele dia, cismou que ele havia engolido uma taça de licor que sumira da prateleira. Nunca havia suspeitado disso, mas, naquele dia, mergulhada nos olhos castanhos vitrificados, desconfiara. Estava com ele a taça. Era preciso abrí-lo. Subiu enfurecida à superfície, os dentes rangendo famintos, em busca de sua britadeira, seu serrote, faca e pinça - o material sanguíneo. Desceu novamente, mal conseguindo carregar tudo sozinha. Os olhos vivos. Perfurou a resina que guardava o tronco, com o serrote rasgou-lhe a pele do abdômen e com a pinça (a pinça era delicada demais, então, largou-a)... com as mãos, fuçou-lhe o bucho. O sangue, incrivelmente, ainda fresco. Como podia ainda estar fresco? Tantos anos encapsulado em resina, numa mina escura... C. tinha sangue, de novo, até os ombros. Pedaços de gordura entrando sob as unhas, o ácido do estômago ardendo-lhe as cutículas descascadas. O lampião apagou.
C. estava só na escuridão da mina. Só, na companhia do cadáver do Visitante. Só.
A lambança começava a coagular quando C. sentiu na ponta dos dedos a boca da taça, enroscada em veias. Pescou-a, como quem, com um arpão, puxa uma moreia de uma caverna infestada de algas.
A taça!!! Apertou-a no peito, lambuzando-se com as gosmas Dele. Bebeu o conteúdo amargo da pescaria e, novamente enfeitiçada, foi, tateando, até o depósito de resina. Derreteu todo o estoque e voltou, novamente cega, arrastando o galão com a lava fervente para a sala central, rodeada pelas vitrines.
Deitou, na banheira, todas as peças do violão ao lado do tronco revirado e, com toda a força que lhe sobrara, despejou a resina sobre os dois. Antes que o líquido secasse, mergulhou ela também. E congelaram-se os três. A taça esquecida num banquinho ao lado.
2 comentários:
Que coisa lindamente horrorosa, minha querida.
bjs,
Renato
Olá, teu blogue é muito legal!
Aproveito para te convidar a fazer parte do Projeto Babel II, só uma forma de mantermos um contato.
Abraços desde Argentina.
Humberto
www.humbertodib.blogspot.com
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