Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

Posso me sentar, Antonio? Veja, essa refeição começou anteontem na minha cozinha, que, olha, ainda está sem gabinete... você reparou nos canos à mostra sob pia? Falo isso como se isso importasse. Importa?

Venha ver o molho dessa massa. Custou a ficar assim como está. Ai, espirrou na sua blusa? Desculpa. A gente limpa já para não manchar. A minha tá toda suja, olha só! Deixei manchar, parece uma aquarela, não parece? Molho interminável. Nem me lembro mais de todos os ingredientes que entraram. Podemos degustar juntos e, feito sommeliers, discriminar cada micro partícula de tempero do oceano, podemos? Esse molho merecia uma taça de cristal. Como eu queria que a sua língua enxergasse como a minha enxerga.

Ainda bem que não enxerga. Assim, posso contar o que a minha vê. Você vai imaginando aí. Depois, me mostra. A sua língua escuta? Antonio do céu, Antonio, Antonio, olha, experimenta! É delicioso! Toda a nossa horta entre ervas daninhas está aqui neste molho. Olha, se molha, se lambuza.

Os tomates, em carne viva, foram muito, muito, muito macerados, cada um. O pilão explodia os gomos, as sementes - rim expelindo suas pedras. O sumo voava longe, você precisava ver. Os azulejos menstruavam, minhas mãos menstruavam. Deixei o suco dormir perto da janela, com sal, para que coagulasse até virar placenta. Tomilho! Eu me lembro! Foi um terço de tomilho, um ramo inteiro. As folhinhas destacadas, uma por uma, entrando em romaria no mar vermelho. As pimentas que você trouxe da Índia.

Meu Deus, Antonio, você tinha pimentas da Índia, de tão longe, sabe-se lá quem plantou essas pimentas, que mãos colheram... Ouvi dizer que quem colhe pimentas tem problemas de visão. No começo, os cientistas achavam que alguma substância ingerida nas regiões de plantio provocava a atrofia dos músculos oculares. Mas, depois, descobriram. As unhas raspam na casca das pimentas e o ardidinho vai para os olhos quando a vista coça. E a vista sempre coça. Esse ardidinho penetra na glândula produtora de lágrimas e vai corroendo as células da pupila. Sobra a cegueira pura.

Fervura. O molho ferveu até não haver mais força para borbulhar, até o próprio fogo ceder. A lenha estalando e o líquido se revirando na panela. Briga de barulhos - bruma grossa me abraça. O vapor misturado com a fumaça e com ele mesmo e ela com ela mesma e com o meu suor. Chegou num ponto de não se enxergar mais nada além da labareda e suas fagulhas. Farol no nevoeiro. A vista ardendo. Eu me guiava pelo barulho do molho e da lenha, a conversa em outra língua que tive de entender.

Quando o fogo começou a se acalmar? Não sei. Não dá para saber. A subida vira ladeira sorrateiramente. Você é descido do jeito que pode. A lenha se calou, o molho se calou, dava para ouvir a neblina caminhando. Não sabia o resultado. A borda da panela envergou, era outra panela: vaso para colocar um arranjo de flores silvestres.

E, agora, o molho morno, na nossa língua. Vê? Era um apetite.

3 comentários:

Viaggio Mondo - assessoria comunicação disse...

Olá, Pati!

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Histórias de garotas disse...

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kevin21 disse...

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