Quarta-feira, Dezembro 22, 2010

Trinca




















Gego
- SemTítulo - 1963

Ele nunca havia se fixado nas estrias. Dezenas, contaminam as coxas, as páginas, como pelotões de um exército à espera de ataque que nunca virá (veio, algum dia, há muito?).

Estrias sobreviventes a todo tipo de tratamento estético. Tripas pulsadas vivas, claras, revelando e cifrando a histeria, a escrita fresca.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Não podia expor as estrias. Já estavam expostas. Eu é que não reparara. Reparara?

Ele atento ao movimento imóvel cobrindo recobrindo (descobrindo?) a pele, as páginas. Rasuras de poros. Veredas, fotografia de ondas, pelotões estáticos, enguias congeladas. Estética da imperfeição. Falha da unidade.

Eram uma única estria estrias.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Ela está posta nos traços transbordados da estrutura - planta escapando da construção, rabiscando o ar.

Vejo os traços secretos dela. Contornos, grifos, rascunhos.

Ele verte lágrimas. Gota a gota, riachos rasgam a nossa face. Eu estou numa margem; ele, em outra. Quem é ele? Quem é você que, pela persiana, espia?

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Potência revelada em cada linha, o tecido completo contemplado num ponto cruz que estabelece a vertigem.

Pele que era pretendida para outra coisa. Não obedece. Caligrafia rebelde, que passa rasteiras no lápis e pinça o olhar habituado.

Movimento: gesto que trapaceia a forma e inaugura o desfazer da idéia que nos escravizará. Vinco que nos vincula.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

O rastro de um avião. Pipa empinada com cerol fissura o vento. Mão que puxa a pauta de um caderno. Essa neurose, essa neurose, essa neurose... a nossa carne crua no mundo.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Ele é campo sem rios, lençol freático sem vazão. Eu sou a chuva que molha a sinastria. Elas são o vazio que hemorragia o invólucro.

- Adriana?
- Oi?
- Nada.

Ranhuras... ranhuras... escrituras.

A língua constata a fibrosidade da superfície que me designa. Os fios desaguam nos olhos, nos cabelos, nas unhas, em você. Não desaguam em nada.

O subterrâneo intuído na boca-de-lobo. Imaginação-frincha deformando. Movimento desse texto estático que me - Adriana, ele, eu, você - costura na página, no nada.

7 comentários:

H A R R Y G O A Z disse...

Happy New Year !!!

Keila Costa disse...

Coisa mais bela e intrigante esse texto seu!

Anônimo disse...

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